12 de março de 2017

Muita gente que tem ouvido a minha história de morte e renascimento acaba por dizer que o tempo apagará essa memória. Não sei se assim será pois o sucedido marcou-me bastante. 

Há precisamente dois meses por esta hora estava imensamente feliz pois finalmente regressava a casa depois da cirurgia. Acordava de uma noite mal dormida, como as outras que passei no hospital, mas feliz pois sabia que regressava a casa e para junto dos meus onde sabia que seria recebido de braços abertos e teria tudo o que precisava para continuar a recuperar.

Mas, como já escrevi noutros relatos, quis o destino que assim não fosse. O dia de felicidade terminaria de uma forma diferente da esperada. Esperada por mim e por todos os que gostam de mim porque acredito que outros ficaram contentes mas isso que se... ;)

Estava um dia de sol mas ao mesmo tempo bastante fresco não estivéssemos no mês de Janeiro. A manhã acordara bastante gelada e pela janela do quarto via os carros cheios de geada e eu de tshir't pois no hospital existe  ar condicionado nos quartos. Por algum motivo digo que estive no hotel e aos quartos por onde passei, foram dois, chamo de suite. WC privativo, tv no quarto, cadeirão, cama, armário privativo, apenas duas camas em que estive 99% do tempo sozinho, ar condicionado, atendimento 24 horas por dia, simpatia extrema... Hospital? Para mim não o consigo tratar assim...



Mas voltando ao relato deste dia 12 de Janeiro pois é por isso que estou a escrever. As horas iam passando lentamente, muito lentamente, tal a ansiedade de regressar ao meu espaço. O almoço de despedida foi sopa de legumes e bife de peru grelhado com arroz branco e salada de alface e a sobremesa foi "ovo estrelado", rodela de ananás com meta de de pêssego.




Ainda o almoço estava a chegar já eu preparava a roupa para vestir mal o meu pai chegasse afim de me trazer de regresso a casa. Esta ansiedade de regressar era um misto de emoções. Feliz por poder voltar a casa mas ao mesmo tempo a saudade já batia pois tinham sido horas de muito carinho vividas ali dentro. Sem palavras que possa escrever a agradecer por tudo.






Pouco passava das 15 horas quando o meu Pai entra no quarto a sorrir para me trazer. Que felicidade eu sentira... Ajudou a vestir-me, despedi-me das pessoas que vi aquando da saída. De outras já me tinha despedido pois fizeram questão de se despedirem de mim antes de eu sair. Era chegada a hora do regresso.

Faço a viagem devagar pois qualquer solavanco dava a entender que tudo se mexia cá dentro. É hora de entrar a porta de casa, que sensação... Antes de subir ao quarto fiz uma coisa, seria impossível não o fazer. Fui junto das bicicletas, toquei-lhes, sorri e disse-lhes baixinho: "em breve estou de volta!" Depois disso subo ao meu quarto onde viria a passar tantos dias ausentando-me dele apenas para ir ao WC e ao hospital. Deitei-me sobre a minha cama, ligo a TV enquanto vou lendo e respondendo a mensagens nas redes sociais e via telemóvel. As horas foram passando. Entretanto comi um iogurte enquanto ia conversando com a minha Mãe sobre a minha cirurgia. Ao final da tarde liga-me a médica de família para saber se tinha corrido tudo bem e para falarmos devido à baixa médica. 

Desliguei o telefone.  Pouco passava das 19 horas e o cheiro a sopa começava a chegar cá cima... Levantei-me e senti uma tontura. Uma tontura que no fundo pensara ser uma velha conhecida porque foi exactamente igual à que me costuma dar devido ao ouvido. Ignorei. Simplesmente ignorei! Não o deveria ter feito eu sei mas...

Vejo tudo à roda, caio desamparado no chão e a partir daí não sei se estive muito tempo se pouco pois a partir daquele momento o mundo para mim parou. Se morria naquela hora não sentiria NADA. Acordei encostado nas pernas do meu Pai que já tinha vindo com a minha Mãe em meu auxilio. Apanharam um susto ao ver que eu não reagia a nada. Acordo, pergunto o que se passou, arredo as calças do pijama e vejo que estou com sangue na cinta e digo: "tenho sangue. Tenho de ir já à Mealhada". A minha Mãe liga ao meu irmão que chega aqui em menos de nada. Eu transpiro como nunca antes e tenho bastante frio. Entro no carro e siga para o hospital horas depois de lá ter saído. Entrei por o meu pé, sentei-me nas cadeiras a aguardar a minha vez pois ninguém imaginava o risco de vida que corria... Apaguei por momentos. A certa altura ouço a máquina de medir a tensão arterial, o enfermeiro corre com duas garrafas de soro e coloca uma em cada braço. Volto a mim por um curto espaço de tempo, além de ter estado sempre acordado a minha memória não captou diversos momentos nem pessoas tendo vindo a saber no dia seguinte quando me perguntavam se conhecia e eu nunca ter visto aquelas caras... vejo o umbigo deitar sangue parecendo um vulcão e continuo completamente relaxado e sereno (foi bom estar assim pois não entrei em stress) perguntado ao enfermeiro: "Sr. enfermeiro isso meia dúzia de pontos e fica fino" ao que responde: "Sim. Claro que fica! Aguarde um pouco que já vai para o bloco o médico está a caminho". Por momentos tive contacto com o que realmente se passava e que era mesmo algo grave. Passado pouco tempo, ou muito... o meu irmão volta de novo à enfermaria e ajuda o enfermeiro a tirar-me a roupa. Sou levado para o bloco operatório.

Entrado lá pergunto se pode ser anestesia local ao que me dizem que sim. Levo a anestesia, é colocado um pano na minha frente e o médico começa a trabalhar. Mantive-me sempre acordado e a conversar. O tempo passou, não sei se rápido se lento pois perdi noção disso. Está feito e bem feito disse o médico. Apertou-me a mão e desejou boa sorte. Agradeci tudo o que fizera por mim com a sua equipa e o seu sorriso disse tudo.

Sou levado para o quarto onde pensava que iria sair no dia seguinte. Sim no dia seguinte pois nunca tive percepção da realidade do que me tinha acontecido com aquela queda estúpida. Soube que não regresso na sexta feira ainda pela manhã pela enfermeira. O mundo desaba de novo eu queria regressar. Chorei, senti-me desesperado e quando vejo os meus Pais saírem do quarto desatei a chorar pois estava bastante frágil mentalmente. Chega o sábado e o meu quarto é um entra e sai de família e amigos. Sou um sortudo por ter tanta gente boa do meu lado! O domingo é continuação de sábado e a força mental começa a surgir era impossível não surgir com tanto carinho recebido. Segunda feira e aí sim será o regresso a casa em definitivo. Antes da saída ainda uma ultima visita de um grande amigo.

A felicidade de regressar a casa impera na minha cabeça mas ao mesmo tempo bate forte a saudade de deixar aquelas instalações por todo o carinho que recebi naqueles dias.  A ultima visita, e se não esqueço nenhuma delas esta jamais será esquecida, foi da auxiliar que me recebera quando cheguei "morto" ao hospital. A sua felicidade de ver que eu estava bem encheu-me o coração de felicidade.  Eu entre lágrimas e um sorriso apenas olhei e lhe disse: "obrigado por ter ajudado a salvar-me a vida". Ao que responde com um sorriso puro e sincero, de quem já viveu outras situações idênticas e que nasceu para ajudar o próximo, e me responde: "não tem de agradecer porque Eu apenas fiz o meu trabalho". Saí feliz porque tive a oportunidade de lhe agradecer por tudo o que tinha feito por mim mesmo não sabendo quem era a senhora, porque como refiro anteriormente "desliguei" em certos momentos, ela acaba por me dizer que me teve nos braços... Esta senhora naquela hora foi incansável tal como o enfermeiro que mais tarde apanhei num dos curativos e agradeci terem-me ajudado a estar cá para contar mais um capitulo da minha vida.

E hoje pouco depois das 19 horas fará dois meses que estive "morto" mas que não era a hora da partida tendo ajuda para estar aqui a escrever mais uma página da minha vida. Desde este dia que passei a dar mais valor a pequenas coisas da vida. Aprendi a viver de novo. Não somos NADA nesta passagem pela terra. Vivam felizes e sejam felizes.

Obrigado por terem perdido algum tempo do vosso tempo a ler este texto. Esta página de uma história de vida. A minha história. A minha vida!

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